Marilena Chauí
Luis Fernando Verissimo
- Oi.
- Oi.
- Desculpe. E que nós vimos você sentada aqui sozinha...
- Estou esperando meu namorado.
- Eu posso falar com você até ele chegar?
- Falar?
- É. Só conversar. Não é paquera, juro.
- Bom...
- Eu estou naquela mesa ali, com aquela turma. Nós estávamos tentando decidir se você é modelo ou atriz. Metade aposta que você é modelo, metade aposta que você é atriz.
- Não sou nem uma coisa nem outra.
- E só bonita.
- Só bonita, não. Eu trabalho. Num escritório de advocacia.
- Ah, é advogada?
- Não. Faço trabalho administrativo.
- Veja você. Quando a gente vê uma mulher extremamente bonita, como é o seu caso, logo conclui que ela deve viver de explorar sua beleza. Que se não fizer isso está desperdiçando sua beleza. Ou sonegando sua beleza do público, o que não deixa de ser uma forma de preconceito. A mulher pode ser bonita sem fins lucrativos. Pode ser bonita de graça.
- Você, como apostou?
- Hem?
- Você: apostou que eu era atriz ou modelo?
- Pois você não vai acreditar. Fui o único que destoei dos dois lados. Disse: aquela ali é uma intelectual.
- Não sou não.
- Certo. Não digo uma escritora, uma pesquisadora, uma estudante de antropologia social... Mas há algo de... de... espiritual na sua beleza. Pensei: ela pode não abrir um livro...
- Gosto de livro de vampiro.
- Pois então. Ela pode só ler livro de vampiro e ao mesmo tempo ter uma mente superior. Notei isso de longe. Vim aqui com a missão de descobrir se você é modelo ou atriz e vi que eu é que tinha razão.
- Você ganhou a aposta.
- É... Não vou precisar pagar o chope... Se eles acreditarem em mim, claro.
- Como, se eles acreditarem?
- Podem não acreditar. Achar que eu estou inventando para ganhar a aposta. Que você não tem nada de espiritual. E nenhuma curiosidade intelectual.
- Como eu posso ajudar?
- Vamos fazer o seguinte. Hoje, às 10h, tem uma entrevista com a Marilena Chauí na TV Cultura. Eu posso, lá da outra mesa, lembrar você da entrevista e você faz um sinal de oquei. Oquei?
- Combinado.
Ele volta para a mesa da turma e diz:
- Está no papo.
- O quê?!
- Dez horas no apartamento dela.
- Você está brincando...
- Eu não apostei que conseguia?
E para ela, na outra mesa:
- Dez horas! Não esquece!
E ela faz um sinal de oquei.
Domingo, 22 de janeiro de 2012.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.